Estava eu esses dias matutando (ainda existe essa palavra?) nos últimos livros e revistas que li, nos seminários e palestras que participei – e cheguei à conclusão (óbvia) que, a cada dia que passa, os discursos se tornam cada vez mais iguais.
Gestores, empresários, empreendedores, profissionais de marketing, economistas, todos estão conclamando a sociedade a repensarem suas atitudes, seja como cidadão ou como profissional.
Acredito que, em plena era do conhecimento, estamos finalmente voltando nossos olhos, mentes e coração para o principal: nossos relacionamentos, em busca de uma vida com mais qualidade para todos.
Parece que o mundo finalmente descobriu que, para vivermos melhor, precisamos abrir mão de certas vantagens oportunistas em troca de uma vantagem coletiva. É a base da teoria dos jogos, da convivência colaborativa em busca de uma sociedade onde todos ganham.
Desde meu nascimento eu convivo diariamente com questões profundas como valores, ética, responsabilidade x liberdade, caridade, filantropia…
Neta de um homem que dedicou sua vida à sociedade, como já falei em posts mais pessoais aqui, sempre vi com muita naturalidade esse debate sobre a influência de nossas ações na vida dos que nos cercam, sejam esses nossa família, vizinhos, sociedade, governo (só não sabia que isso teria um nome um dia – os famosos stakeholders…)
Por empirismo, considero que busquei, desde a infância, praticar o que chamam de responsabilidade social individual. Centrada em meus valores éticos, sempre busquei pautar minha existência na condição – “faça aos outros o que gostaria que fizessem com você” e “sua liberdade termina quando começa a do próximo”.
Não quer dizer que sou uma Madre Teresa de Calcutá. Tenho em mim o lado negro da força, como diriam os fãs de Star Wars (ou seja, quase todos os nerds e geeks do planeta) e exerço minha cota de pecados diários involuntários (ou não) como qualquer mortal.
Só que, nesses momentos, quando a situação me obriga a uma escolha “menos saudável” do ponto de vista moral, me obrigo a um exercício diário de estudo e reflexão de como minimizar os efeitos negativos daquela minha opção sobre o próximo.
Robert Srour, no livro “De boas intenções as empresas estão cheias!” classifica essa atitude na teoria da responsabilidade. De acordo com o autor, nessa linha, a tomada de decisão “se faz essencialmente com base no mal menor ou na aceitação de um mal necessário para obter o bem.
Ou seja, se escolho realizar um tratamento quimioterápico para combater um câncer, estou me arriscando (afinal, minha mãe faleceu por causa do tratamento quimioterápico e radioativo) com objetivo de prolongar minha vida.
Quando falamos de responsabilidade social, seja empresarial, seja individual, temos que ter consciência que a teoria ética da convicção não consegue abarcar a complexidade dos relacionamentos.
Concordo que nossos valores são imutáveis, pois são estruturais, fazem parte da nossa essência. Não existe um estar ético. Ou você é, ou você não é. Simples assim.
Por outro lado, a cada escolha que fazemos temos sempre que pesar os prós e contras advindos da opção, já que, como já disse na palestra do quintadigital, toda escolha pressupõe uma renúncia.
A quimioterapia, citada anteriormente, não é a solução ideal para a cura do câncer. A morte da minha mãe comprova isso. Porém, atualmente, é a possível. Sem ela, as chances de minha mãe se curar seriam quase zero (falo quase porque acredito em coisas que a nossa razão ainda não sabe compreender, mas isso é assunto pra outro post).
Enquanto não existem soluções ideais para certas decisões, buscamos aquelas que têm os menores efeitos colaterais, ou seja, que provoquem menos estragos. Assim, um banco, que sabe ser sua atividade muitas vezes predatória (ainda mais aqui no Brasil) tem condições de minimizar seus efeitos negativos sendo mais transparente com o cliente, conscientizando-o em relação aos perigos dos empréstimos em longo prazo, do uso do cheque especial, e por aí vai.
Esse é um lado da responsabilidade, ou seja, tentar evitar ou diminuir os riscos de praticar o mal. Mas, como já disse um filósofo (e não lembro qual) não basta evitar o mal, é necessário praticar o bem.
Esse é o ponto mais complexo e debatido em relação à responsabilidade social. Afinal, até onde vai a nossa responsabilidade pelo próximo? Muitas pessoas alegam que já fazem sua parte ao pagarem os impostos, obedecerem as leis e não causarem danos (roubar, matar, enganar, subornar, etc.). Ou seja, cumprir com suas obrigações pautadas pela Norma escolhida pela sociedade está de bom tamanho.
Será?
Vivemos em uma época extremamente complexa. A desigualdade social, apesar de ter diminuído no país nos último anos graças aos programas de transferência de rendas e ações sociais (do governo, da sociedade e das empresas) ainda é escandalosa.
É inadmissível que um país rico como o nosso carregue a bandeira de terceiro pior nível de desigualdade de renda do mundo, empatado com o Equador, de acordo com o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Fato que nunca teremos um mundo absolutamente igual, pois somos diferentes um do outro. Cada pessoa tem sua capacidade de produzir, sua ambição, suas necessidades e seus objetivos de vida. E isso não é errado.
O que machuca é a ausência de OPORTUNIDADES IGUAIS. Se todos tivessem as mesmas condições básicas de vida (habitação, segurança, saúde, alimentação, saneamento, educação) com certeza esse quadro seria bem diferente.
Empresas e pessoas precisam entender que fazer o bem não é simplesmente por ser bonzinho. Claro que perpassa na questão de valores, tão citadas pelos mestres e atuais palestrantes.
É mais inteligente agir assim. Quando vivemos em uma sociedade onde as pessoas têm condições plenas de exercer seus direitos, os deveres são mais observados. A consciência social se materializa em cidadãos mais educados, em um nível de violência menor (em todos os sentidos), em colaboradores mais saudáveis e produtivos.
Importante destacar que não são necessários gestos heróicos de cada cidadão para fazer a sua parte. São pequenos detalhes do dia a dia que fazem a diferença.
No meu caso, o trabalho do grupo solidário é um bom exemplo. Afinal, não faço nada demais. Apenas gasto cerca de 20 horas semanais para postar vagas no site, analisar currículos, trocar alguns emails e comunicar ao grupo o trabalho realizado na semana.
Mas é impressionante o retorno. Somente nas duas últimas semanas fiquei sabendo de três pessoas que foram recolocadas através do grupo, seja por indicação direta, seja por terem se candidatado a vagas postadas no site.
Isso se traduz para a sociedade em produtividade, geração de renda, maior poder de consumo… Não ganhamos apenas o agradecimento (que em si, já é delicioso e esquenta meu coração), mas uma sociedade melhor e demanda de trabalho para mim, já que as empresas investem cada vez mais em suas estratégias de marketing e relacionamentos! Não é maravilhoso?
A próxima vez que sua empresa ou você pensar em relação à responsabilidade social e cair na tentação da velha questão “o que eu tenho a ver com isso?”, lembre-se: a partir do momento que seus ancestrais (e sua geração perpetuou) escolheram viver em sociedade, todos têm a ver com todos. Estamos interligados. E essa conexão faz com que nossas atitudes, geradas pelos valores que cultivamos (ou não) tenham reações em nossa própria qualidade de vida.
Enfim, você tem tudo a ver com isso!
Bjs
Dri Torres





Excelente! É claro que todos temos a ver com o assunto, pessoas e empresas, ainda que,muitas vezes, se torne mais fácil adoptar uma política de avestruz, enterrando a cabeça na areia e recusando ver o que está à vista de todos. É claro que, na essência, estamos perante um problema de valores, e esses, inegavelmente, estão sujeitos a transformações permanentes. Os valores dos jovens são, cada vez menos, os valores dos pais, como eram no nosso tempo e as sociedades tendem a tornar-se cada vez mais materialistas e a difundir os valores que lhe estão associados. Se, como dizia JJRousseau, “o homem nasce bom, mas a sociedade corrompe-o”, então teremos de admitir que a sociedade em que vivemos tem todos os ingredientes para corromper as novas gerações… Parabén pelo artigo Beijo Rui
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Adriana Torres Reply:
August 23rd, 2010 at 9:49 pm
Olá Rui,
pois então, acredito que, finalmente, teremos uma mudança aí. Após décadas de consumismo, da lei de Gerson e do jeitinho brasileiro, vejo que todos estão questionando esse modelo falido onde o que importa é o imediatismo.
Posso estar sendo otimista em excesso, mas acho que vamos ter netos melhores que nossos filhos…A crise atual tem levantado todas essas questões, acredito que é por isso que falam que crise = oportunidade. É quando vemos o que fizemos de errado e o que é necessáiro consertar!
Tenho fé!
Bjs – e obrigada pelo comentário!
Dri
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