Adriana Torres

Porque Relacionar é preciso

Posted by Adriana Torres | November - 23 - 2011 | 5 Comments

Atendendo a blogagem coletiva convocada pelas feministas da minha timeline (leiam aqui esse excelente post da @nideoliveira71 e aqui o das blogueiras feministas) criei esse post “ficção”.

No dia 25 de novembro – Dia Internacional de Luta Contra a Violência à Mulher, todas postaremos nas plataformas digitais (twitter, facebook, Google +, etc) os links dos diversos posts a respeito.

Em um país como o Brasil, onde muitos não enxergam a existência do machismo, da homofobia e do racismo, conscientização é fundamental.

Sobre o post: são pequenos relatos de FATOS que já ocorreram comigo e/ou com milhares de mulheres Brasil afora. Você pode pensar que é exagero. Ou que é apenas um #mimimi sem sentido. Aliás, será bem comum isso. Faz parte da violência moral que sofremos diariamente…

Apenas peço que pare e reflita. Por um, dois, três dias. Nós podemos mudar isso. Assim como um alcoólatra pode deixar seu vício. Mas, para conseguir realizar essa façanha, o primeiro passo é se reconhecer alcoólatra.

No caso do machismo e da violência contra as mulheres, faz-se necessário enxergar além da “tradição” e da “cultura”. Bora lá?

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Joana estava com apenas sete anos de vida e era uma garotinha feliz. Seus pais a adoravam, mas sua mãe já insistia em levá-la ao terapeuta. Motivo: Joana detestava bonecas e as jogava longe, preferindo brincar de bola com os moleques da rua ou com o carrinho do seu irmão.

“Ah, meu Deus, será que essa menina tem algum problema? Ela não gosta de se enfeitar, eu me mato tentando arrumá-la e em poucos minutos ela está toda bagunçada, querendo só ficar brincando com os meninos… estou com medo…” desabafava a mãe com as amigas de plantão, que se entreolhavam com aquele olhar de quem já sabe qual é o “problema”.

Joana tinha um sonho: ser jogadora de futebol. Sabia que poderia ser uma grande atleta. Mas não tinha coragem de contar para sua mãe e, com o passar dos anos, desistiu do intento.

Acabou fazendo um curso técnico de contabilidade e seguindo sua vida, sem muito prazer, sem muito gosto, sem muito nada.

Teve uma vida morna, meio assim, sem graça.

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Ana era uma menina vaidosa. Que rosto lindo, diziam os parentes. Pena que está gordinha, completavam.

Com apenas 13 anos Ana fez seu primeiro regime. Foram pelo menos vinte até seus 18 anos.

Agora Ana tem um corpo como seus parentes queriam. O que ninguém sabe é que Ana sofre de uma doença séria, chamada anorexia.

Se um médico pudesse examiná-la, aos vinte e dois anos, exigiria um tratamento urgente.

O organismo de Ana está em frangalhos. E provavelmente em poucos anos seus órgãos principais começarão a falhar.

Ela se sente deprimida, triste, perdida. Não consegue enxergar sua beleza, seu corpo, apenas ouve em sua mente repetidamente a velha frase “Pena que está gordinha”…

Mas os parentes de Ana estão felizes e isso é o mais importante para ela!

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Beth sempre foi uma pequena “gênio”. A mais esperta da turma, a queridinha dos professores, a odiada pela turma do fundão.

Primeiro lugar em todos as provas da escola, diploma de honra ao mérito na faculdade, Beth era realmente muito inteligente e esforçada.

O problema começou quando entrou para o mercado de trabalho. Apesar da inteligência, do esforço e da dedicação, Beth tinha dificuldades em ser promovida.

Ela não entendia por que, mas sempre quando surgia uma vaga na gerência um colega homem, muitas vezes menos experiente e sem a mesma dedicação era o escolhido.

Beth começou a trabalhar cada vez mais. Doze, quatorze horas por dia. Negligenciou sua família, seu lazer, só pensava em provar sua competência.

Após alguns anos de batalha, finalmente a promoção veio.

Feliz após a reunião com o Diretor, cheia de planos na cabeça, passou pela salinha do café e escutou uma conversa a meia voz, vinda de um grupinho de colegas: “Ouvi falar que a Beth vai ser gerente do departamento dela!”

Sorrindo, já ia ao encontro dos amigos para falar a respeito quando um outro colega solta a pérola: “Hummmmm… quem será que a está comendo?”

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“Susana vende geladeira para esquimó”. Assim diziam os diretores de uma das maiores empresas da América Latina de material para construção.

Simpática e muito eficaz, conhecia todas as técnicas para desenvolver bons relacionamentos com os clientes, que a adoravam.

Susana tinha uma ótima vida, um marido que amava muito, amigos dedicados. Mas

Susana tinha um sonho: ser mãe. E esse sonho parecia cada vez mais distante, principalmente após uma doença do marido que diminuiu a probabilidade disso acontecer.

Após quatro anos de tentativa, quando já estava desistindo, um belo dia veio a notícia: Susana estava grávida!

Foi o dia mais feliz de sua vida, conta ela. E foi com essa alegria incontida que ela chegou ao escritório, contando para os colegas e gerentes.

A partir daí, tudo mudou. Aos poucos, sem ela perceber no inicio, os gerentes começaram a remanejar a carteira de clientes. E ela começou a fazer serviços internos, sob a alegação da direção que seria melhor para ela.

Com cinco meses de gravidez, Susana estava no auge da sua felicidade. Até chegar ao trabalho e ver, sobre sua mesa, uma carta de demissão preparada pelo seu superior, explicando friamente que ela não teria mais condições de exercer suas funções e que estava a dispensando do trabalho.

Esclarecia a carta, ao final, que a empresa pagaria a multa rescisória prevista em lei, assegurando todos os direitos a ela reservados, pois eles tinham uma política de responsabilidade social e ética.

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Clarinha sempre gostou de se enfeitar. Desde pequena roubava os batons da mãe e seus saltos. A mãe aprovava e incentivava. Roupinhas bonitas, geralmente bem curtinhas e leves.

Quando Clarinha cresceu, ela continuou gostando de roupinhas bonitas e curtas. Mas seus amigos e pais começaram a alertá-la: “Que roupa é essa? Vai sair assim, como uma piriguete? Depois é estuprada e não sabe por quê…” reclamava o pai, preocupado.

E Clarinha descobriu que, por causa de seu corpo bonito, que ela não tinha vergonha em esconder, seus pretendentes a namoro não conseguiam se segurar.

“Coisa de homem, filha”, dizia a mãe. “Enquanto você se mostrar oferecida assim, eles só vão querer isso com você. Mulher tem que ser uma santa na rua e uma vadia só na cama, aprende comigo”.

E Clarinha, obediente, começou a usar roupas de “mulher decente”. A sorrir candidamente mesmo quando queria soltar um palavrão cabeludo, a baixar os olhos de forma inocente, a usar o tom de voz certo para cada ocasião.

Uma noite Clarinha estava voltando da escola. Tarde da noite, andava distraída pensando nas provas da semana. Não conseguiu ver o rapaz que se aproximou sorrateiramente por trás. Quando percebeu, sentiu algo pontiagudo em suas costas e o hálito quente no seu ouvido mandando-a seguir com ele.

Durou apenas meia hora o suplício. Ao final, o rapaz cuspiu em seu rosto e riu. Clarinha não via mais nada. Não ouvia. Só sentia o sangue quente escorrendo pelas pernas e a dor lancinante dentro de si.

Foi encontrada nesse estado e levada ao Hospital, onde fez todos os exames, foi medicada e levada para depor.

Seu pai a olhava, sem entender. Sua mãe também. “Se fosse naquela época que você se vestia como uma vadia, eu entenderia. Mas agora? O que você fez afinal, minha filha?” Dizia o pai, balançando a cabeça.

Clarinha não conseguia falar. Nem pensar. Permaneceu assim durante muito, muito tempo…

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Marina sempre foi uma menina alegre. Brincalhona, extrovertida, fazia amigos facilmente. Até o dia em que ela conheceu Pedro, um rapaz calado e tímido, que espichava os olhos para ela com uma paixão incontida toda vez que a via bater pernas com suas amigas pelo bairro onde moravam.

Marina se encantou com o jeito calado e decidido do rapaz, quando, desajeitadamente, ele se apresentou e a pediu em namoro.

Em poucos meses Marina estava completamente apaixonada. Pedro tentava adivinhar seus desejos mais secretos, e um dia trazia uma flor, no outro uma caixa de bombons. Era o namorado quase perfeito.

“Quase” porque Pedro implicava com algumas coisas. Primeiro foi com as roupas que ela usava. E ele começou a comprar algumas peças para ela, que achava isso bonito, afinal, ciúmes é algo natural.

Depois foram as amigas. Pedro ficava fora de si quando a via conversando com outro rapaz e achava que todas as outras meninas eram “vadias”, não prestavam e ela não podia andar com elas.

Um ano depois do namoro Marina não saia mais com os seus amigos. E parecia não se importar muito. Nesse dia, Pedro a pediu em casamento, com juras de amor eterno.

Foi logo no segundo mês de casamento que Marina apanhou a primeira vez. Pedro chegou em casa ainda mais calado que o normal. Na roupa, o cheiro do álcool exalava.

Era quase meia noite e Marina ficou muito zangada com ele. Quando começou a reclamar, Pedro levantou e sem pensar duas vezes a estapeou na cara. Chocada, ela tentou reagir e levou outro tapa, que a jogou no chão.

Chorando, ela se encolheu num canto sem saber o que fazer. Pedro desabou no sofá, acordando no dia seguinte passando mal e pedindo mil desculpas enquanto ela arrumava as malas para ir embora.

Seus olhos cheios de paixão e arrependimento, as palavras doces… Foi uma vez, todo mundo perde a cabeça uma vez na vida, pensou Marina. E ela cedeu.

Três anos depois, Marina foi encontrada morta dentro de casa. Os vizinhos cansaram de avisar a polícia das frequentes brigas e agressões.

Alguns diziam, balançando a cabeça: “Por que ela continuou com ele? Por que não foi embora?”

No fim das contas, todos a culpavam pela falta de reação.

Pedro, foragido, nunca mais foi visto por aquelas bandas…

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5 Responses so far.

  1. […] Blogagem Coletiva: #FimdaViolenciaContraMulher – Adriana Torres […]

  2. Amanda says:

    E todo dia tem uma violência dessas pelo caminho – quem nunca passou por nenhuma, nenhuma dessas, que dê graças a Deus…Porque são histórias extremamente comuns e frequentemente são banalizadas aos olhos de quem não as sofre.

    Beijos e parabéns pelo belo post.

    Abraços

    Amanda

    [Reply]

    Adriana Torres Reply:

    Obrigada Amanda!

    Tem tantas outras, né? Só que se eu colocasse cada uma teria que fazer um livro! Para muitos algumas dessas histórias são apenas “infelicidades”, “falta de sorte”. Para quem vive isso no dia a dia, a resposta é clara: o machismo mata, seja fisicamente, seja emocionalmente. E não só mulheres. Mata os próprios homens. Até quando?

    Abraço!

    Dri

    [Reply]

  3. […] Outro texto excelente da Blogagem coletiva foi o da Adriana Torres; ela enumera historinhas fictícias que infelizmente acontecem de verdade; muito bom para […]


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