Adriana Torres

Porque Relacionar é preciso

Posted by Adriana Torres | January - 8 - 2015 | 0 Comment

Em maio de 2014 fui convidada para palestrar no Seminário de Oratória do UNI-BH sobre a teoria e a prática do discurso “politicamente correto”. O termo, cunhado por conservadores estadunidenses nas guerras culturais dos anos 80 e 90 para desmerecer a luta por direitos de coletivos e movimentos é hoje amplamente usado para atacar quem tenta desconstruir o discurso homofóbico, racista, classista, machista ou xenofóbico.

Em “A ordem do Discurso“, Foucault examina como o discurso é utilizado para controlar e subjugar as massas, impor regras e limites e manter o status quo de quem oprime.

“O discurso não é simplesmente o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, aquilo pelo que se luta, o poder de que se procura se apoderar”

O que significa isso, no fim das contas?

Quando você faz uma piada racista, você está confirmando o sistema que exclui e mata milhares de negros no país.

Quando você diz que um cabelo é ruim porque ele não é liso, você está dizendo que ser negro é ruim, é ser inferior, exatamente como os escravocratas falavam.

Quando você acredita que um jovem negro infrator deve ser amarrado em um poste e um jovem branco infrator acolhido em suas “loucuras juvenis”, você está apoiando a exclusão, o racismo, a desigualdade social.

A indignação seletiva é uma das maiores violências da nossa sociedade. Muitos se chocaram com o terrível ataque ocorrido ontem na França, mas vários entre esses muitos não se abalam com as Claudias, os Amarildos e as milhares de brasileiras e brasileiros que são assassinados no país por serem pobres, por serem negros, por serem mulheres, trans, homossexuais. A nossa intolerância é perdoável, é compreensível, a do outro não.

Quando o deputado Bolsonaro disse para outra deputada que não a estupraria porque ela não merecia, muitas pessoas o defenderam dizendo que foi um “ataque político”. Esquecem que a prática e o discurso se misturam ao ponto de não sabermos mais onde um começa e o outro termina. Eu já fui estuprada. Isso foi mérito meu? Devo agradecer? Ou esse “comentário” só vale para quem você não gosta?

Talvez eu tenha merecido mesmo, de acordo com a “piada” de um suposto humorista. Afinal, beleza é algo discutível e, para ele talvez eu seja feia e feias deveriam ficar felizes por serem estupradas. Talvez eu tenha merecido porque uso alguma roupa provocante, como um vestido quando está muito calor, segundo outro humorista brasileiro.

Agora, vamos aos números, meus queridos companheiros da lida: mais da metade das vítimas de estupro no Brasil são meninas de até 13 anos de idade. A maior parte dos casos de violência sexual acontece dentro de casa, cometidos por conhecidos e até familiares.

Quando você diz que frases como a do deputado ou do humorista são apenas “ataques políticos” ou “piadas”, você está reforçando o conceito que essas vítimas foram culpadas pelo que sofreram. Você as está violentando novamente!

Quando você opta por divulgar notícias na internet chamando uma mulher de vagabunda e de puta porque ela abandonou um animal você está reforçando o machismo, o especismo e em NENHUM momento está agindo na causa do crime cometido e protegendo a vítima. Pelo contrário, você está cometendo uma infração, passível de punição.

Não sou entendida de orixás, mas como bem lembrou a Iara Ávila nesse post fresquinho do Biscate (corre lá pra ler!), esse é o ano de Ogum: “o deus da guerra, e é que este ano junto Marte estará reinando junto com ele. Há previsões de mortes terríveis, guerras a serem declaradas e as pessoas vão ser mais intolerantes com os outros (ainda mais intolerantes? )”

Que medo! =(

Essa intolerância começa no discurso. E culmina em sua prática. Se é para ser intolerante, que possamos escolher nossos inimigos. Tô com a Iara, guerreando contra o preconceito, contra a caretice, contra os limites.

Tô na luta para comunicar direitos!

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