Domingo, dia 18, estará completando um ano e nove meses que minha querida mãezinha despediu-se da Terra. Desde então, não houve um dia sequer que não acordei ou deitei pensando nela.
No início eram momentos angustiantes. Mas, graças a fé e ao tempo, esse amigo tão querido, essas se tornaram nossas horas de amor. Lembranças queridas, que aquecem o coração e me deixam feliz por ter amado alguém de forma tão intensa e verdadeira. Horas em que também eu desabafo, peço conselhos, ou simplesmente deixo escapar um sorriso que só mãe é capaz de entender…
Mas nem sempre foi assim. Vivíamos às turras, desde meu nascimento até alguns anos atrás. Meus irmãos que o digam, pois nossas brigas eram motivo de verdadeiras gargalhadas entre eles. Imaginem duas pessoas com gênios quase idênticos apontando as falhas uma da outra? As mesmas falhas? “Olha o porco falando do toucinho“, era a frase repetida por eles…
Tivemos também inúmeros momentos felizes, claro! Duas amantes da música e da boemia unidas… ríamos e cantávamos de braços dados pela rua, torcíamos histericamente para que o mocinho ficasse com a mocinha no fim do filme de amor, rezávamos aos prantos pelos deserdados da sorte que víamos passar nos programas de TV. Os almoços divertidos na casa do meu avô, onde ela sempre estava com o violão e eu, aluna aplicada, mostrando que apesar da falta de coordenação motora para dominar as cordas do instrumento, possuía uma voz quase tão bonita quanto daquela que me deu a vida.
Mas os choques das personalidades, que se mostravam cada vez mais parecidas, aumentavam com o passar do tempo. Uma vez, há muitos anos, minha mãe foi em uma cartomante famosa em Belo Horizonte que, tirando as cartas, foi descrevendo um a um dos seus filhos, até chegar na mais jovem (eu). A adivinha não teve dúvidas e disparou: “Essa sua filha nem precisava ter tido pai. Ela é o seu clone”. Não preciso dizer que meus irmãos repetiram isso até cansar da brincadeira…
Quando saí de casa, já com vinte e oito anos, nossas brigas tinham ultrapassado o limite do respeito ao próximo. Eu era muito dura com ela. Ela comigo. Trocávamos farpas e palavras ásperas quase diariamente e sofríamos com isso. Ao sair, por defender uma verdade importante para mim (isso é caso pra outro post) ela ficou furiosa. Mas foi, com certeza, a melhor coisa que nos aconteceu. Aos poucos, voltamos a nos relacionar. A sermos amigas, a trocarmos confidências e a implicarmos uma com a outra de forma leve e carinhosa. Claro, se ficávamos muitas horas juntas já começávamos a nos estranhar e era hora de partir…
Voltei a morar perto de sua casa e, além de largar meu cachorro todos os dias lá para ir ao trabalho, a visitava nos finais de semana. Ela voltou a ter orgulho de mim, ao assistir emocionada minha formatura em setembro de 2005 e foi, vaidosa, que levou para sua casa os prêmios que recebi e que mostrava, convencida, para todos os visitantes… coisas de mãe.
Então veio o câncer. Lembro dela, em dezembro do mesmo ano, assustada, me chamando em um canto do quarto, dizendo que ninguém ainda sabia (minha mãe tinha essa mania, contava para cada um dizendo que era segredo e que não poderíamos espalhar, mas ela mesma tinha a capacidade de tornar a coisa pública em poucos dias – uma característica dela que não herdei). Eu, que tinha parado de fumar poucos meses antes, entrei em choque (e um mês depois voltei para o bendito). Mas eu tinha confiança que venceríamos a guerra, afinal, câncer no útero já era algo quase trivial.
Depois, veio a notícia que o câncer dela, por ter começado de forma diferente do normal (a maioria começa na entrada do colo do útero, só que nunca me falaram que 15% dos casos aconteciam de forma inversa, como foi no de minha mãe) não era detectável pelo exame de rotina e, por isso, ao ser diagnosticado, já tinha se espalhado por todo o órgão. Nem operar era possível, o único jeito era travar uma verdadeira guerra contra as células cancerígenas, com um bombardeio de quimioterapia e radioterapia.
Eu, ainda confiante, tinha quase a certeza que iríamos vencer. E assim foi. O câncer foi assassinado pelos médicos e seu tratamento agressivo. Mas… e sempre tem um mas, né? Alguns meses se passaram e sua saúde se deteriorava cada vez mais. Dores intestinais cada vez mais agudas, diarréias constantes ou a síndrome do intestino preso. Em meados de julho ela foi internada. E o diagnóstico, nada agradável: ela estava com uma doença crônica, causada pelo tratamento do câncer, que sugou sua vida em pouco menos de dois anos.
Foi um período de muita dor para todos nós. Ver minha mãe guerreira definhando (ela chegou a pesar pouco mais de trinta quilos no final), urrando de dor sem que a morfina desse jeito, era um verdadeiro pesadelo diário. Eu sofria a culpa por nossas intermináveis brigas, pela minha meninice tresloucada ou pelas minhas decisões egoístas. Ela, por sua vez, se culpava por não ter sido a mãe que gostaria de ter sido, por não ter nos dado o que ela sonhava… culpas, culpas, sempre as culpas a tirarem o sabor da vida…
Mas esses dois anos foram, acima de tudo, os responsáveis por nossa total entrega ao sentimento de amor que nos unia. Entre suas dores e momentos de tensão, voltamos a cantar juntas. A dividir segredos e a compartilhar nossos anseios. Eu, me aventurando cada vez mais na cozinha, onde ela reinava. Ela, aceitando a cada dia um pouco mais a minha crença, diferente da dela. Nossa cumplicidade crescia junto com seu martírio…
Minha mãe sempre foi avessa a demonstrações de afeto, como beijos, abraços ou palavras carinhosas. Faltando alguns dias para sua passagem, a família, em acordo com os médicos que a tratavam em casa, decidiram sedá-la para que ela não sofresse mais. Passaria os últimos dias sem sentir dor. Sem saber que a decisão já tinha sido tomada, resolvi ir embora mais cedo do trabalho, sabendo que o fim estava próximo. Cheguei alguns minutos antes de colocarem o sedativo no soro e, quando me aproximei da cama, ela me olhou, com um amor incontido e agradecido nos olhos molhados e disse: “Oh, meu amor, você está aqui…”
Eu esperei 35 anos de minha vida para escutar essa frase, tão singela e tão carregada de significados. E é ela que hoje me faz suspirar de saudade, seja de manhã ou a noite, frase embalada mentalmente com as músicas que outrora cantávamos juntas.
É por ela, minha guerreira menina, que hoje escrevo. Para lembrar que em minha alma existe um pedaço grande dessa mulher incrível, orgulhosa, ciumenta, amiga, generosa, implicante e poderosa. Foi por ela que escrevi as palavras abaixo, na mesma noite em que partiu para seu verdadeiro lar…
E é por ela, pelo seu exemplo de força, fé, coragem e alegria, que mesmo nos momentos mais complexos, levanto alto esse nariz atrevido e digo: Eu vou dar conta! Sou filha de D. Inês, a guerreira!
“Assim como viver sem ter amor não é viver, não há você sem mim e eu não existo sem você”
Como expressar em simples palavras sua personalidade ímpar? Mãe valorosa, Filha abnegada, Amiga “para o que der e vier” Irmã, sempre presente Mulher, na mais pura essência! Forte nas horas de dor Frágil nos momentos de ternura Luz-guia dos passos de tantos que cruzaram seu caminho. Agora você parte… e voa, leve como um passarinho, a desbravar novos mundos, a levar seu canto de amor pela imensidão azul. Vá em paz, guerreira-menina. Nós aqui ficaremos, buscando seguir seu exemplo de fé, alegria e verdade. Jesus será nosso leme para o reencontro certo. Até breve, querida. Nosso amor nos une para sempre!
P.S Ainda vou escrever sua historia de vida, que merece ser contada…talvez no dia 18 de julho, quando completará dois anos de sua partida. Ou mesmo no dia 07 do mesmo mês, dia do aniversário de minha irmã Patricia, que há muitos anos aguardava sua mãezinha na dimensão espiritual…





Excelente! Parabéns por sua enorme sensibilidade, coisa que vai sendo rara nos nossos dias. Entendo muito bem o que vc fala, pois eu perdi a minha com 12 anos. O tempo ajuda a diminuir a dor, mas acaba avivandi a amemória e a saudade. Mas é assim a vida… Continue a cultivar essa sua sensibilidade e que a vida lhe sorria sempre. Bom fim de semana Um Abraço
Rui M Santos
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Adriana Torres Reply:
April 16th, 2010 at 11:18 am
Oi Rui, obrigada pela visita e pelo comentário…
Perder mãe é algo doloroso. Mais ainda quando essa mãe foi o símbolo de sua vida. A minha girou em torno da dela (já que meus pais eram separados e eu via o meu pouco) durante todo o nosso caminhar…
Essa sensibilidade é dela. Alma de artista que tinha…
Vamos em frente, com nossa saudade e com o bom exemplo que elas nos deixaram!
Abrs
Dri
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Olá Dri É verdade, sigamos em frente, tendo o exemplo delas bem presente. A minha mãe também foi absolutamente maracnte na minha vida, apesar de ter partido tão cedo. O exemplo é dela, mas a sensibilidade é sua e por isso lhe dou meus parabéns. Tenha um maravilhoso final de semana. Abraço
Rui
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owmeldels…meu choro matinal de segunda… linda história, lindo texto, linda homenagem…
Sua mãe deve mesmo ter um puta orgulho de ter deixado seu ‘clone’ aqui na terra =D
Beijoooo
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Adriana Torres Reply:
April 19th, 2010 at 5:23 pm
Eita… adorei o recado mocinha!
Meu relacionamento com minha mãe realmente daria um livro especial. É o amor que nos move né? Sempre…
Bjs e obrigada.
Dri
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Adriana, emocionada com a beleza de sua homenagem à querida Inês. Sua mãe lutou enquanto pôde contra o terrível mal que a dominou. Era de fato uma guerreira. As brigas da menina Adriana com a menina Inês eram brigas de amor e, tenho certeza, serviram para consoidar esse afeto que não é apenas de mãe e filha mas de duas almas unidas por laços espirituais. Não importa que a profissão de fé não tenha sido a mesma. o Cristo é um só e seus ensinamentos o mesmo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” Na outra dimensão onde se encontra deve ter lido seus escritos e sentido orguho de sua filha e amiga. Quem sabe lhe tenha cantado uma cantiga de ninar.Parabéns, Adriana. Beijos de Celina
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Adriana Torres Reply:
April 22nd, 2010 at 9:29 am
Celina, Fiquei muito emocionada com suas palavras. E ontem dormi embalada por elas… obrigada! Minha mãe gostava muito de você e acredito também que histórias passadas que desenvolveram esses laços de afeto. Nos reencontraremos em breve, como a grande família espiritual que somos!
Bjs
Dri
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Vi, agora, mais esta faceta de você! Mais uma vez, estou consigo, de alma e coração!
Um grande abraço e beijo com profundo sentimento de comunhão! Este seu amigo de Portugal
JRC
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Adriana Torres Reply:
June 13th, 2010 at 11:24 pm
Obrigada, meu amigo…
Abrs
Dri
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Neste link, um post lembrado por esta sua evocação de MÃE! Pela sua, que Deus a tenha sorrindo para si com o mesmo sorriso!
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Oi Adriana, li sua homenagem e confesso que fiquei emocionada..nao tive muito contato com a tia ines, mas as poucas vezes que estivemos juntas ela sempre foi muito carinhosa comigo.. sei como é o amor de mae (que é pai tbm)..muito intenso… um beijo, laura
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