Adriana Torres

Porque Relacionar é preciso

Posted by Adriana Torres | July - 7 - 2010 | 7 Comments

Nasceu no dia 07/07/1967. Um número tão bonito deveria ser considerado de sorte. A segunda filha de um dos casais mais apaixonados de BH. O casal “vinte”, como vários amigos comentavam.

Era linda. Cabelos castanhos claros e olhos castanhos, um sorriso doce e os traços característicos da família (que se perpetuam até hoje nas filhas das irmãs).

Alegre, muito inteligente e faladeira, tinha gestos de ternura encantadores, como levar regularmente rosas para uma vizinha…

Atrevida, curiosa e manhosa, era também bem chatinha!

Sim, isso é o pouco que sei dela. Algumas histórias contadas por minha mãe, entre lágrimas de saudade. Outras, como a da minha tia Zezé, que gostava de gravar a si mesma falando  nos momentos de fossa (e álcool) e sempre pegava a pirralha escutando atrás da porta e rindo até não poder mais… (também né…)

Tudo aconteceu muito rápido, segundo minha mãe contou. Ela acordou um dia com febre e essa febre foi piorando cada vez mais rápido. Minha mãe ligou para o médico, particular, daqueles que ia até a casa do paciente. E o mesmo, achando que era histeria de mãe, diagnosticou gripe, nada que um analgésico não poderia resolver…

Bem, não resolveu. A febre, se me lembro bem da história, começou na segunda e na quarta a menina estava quase delirando. Agitada, andava de um lado para o outro, balbuciando palavras sem muito sentido já. Minha mãe, em franco desespero, ligou para o médico, que estava em uma festa. O mesmo, enfastiado, apenas respondeu lacônico: “Dá uma aspirina pra ela”.

Tia Olga (minha madrinha e irmã de minha mãe), revoltada, ao saber do acontecido, foi na nossa casa no dia seguinte e correu com a jovem para o hospital, com meus pais em prantos e sem saber o que estava acontecendo. Minha outra irmã, de apenas quatro anos, também já estava com a mesma doença misteriosa.

Mas era tarde para a pequena Patrícia. Ou melhor, já era sua hora. Pouco tempo se passou e ela se foi, como um passarinho, ou como as rosas que entregava para a vizinha.

Não quero aqui lembrar de todos os detalhes de como nossa vida nunca mais foi a mesma desde sua partida. Apenas alguns, que nunca serão esquecidos…

A doença foi diagnosticada após sua morte (ou durante sua morte, não sei): escarlatina, uma doença infantil relativamente simples, mas que pode matar se não diagnosticada e tratada a tempo. Ela provoca febres altíssimas, causando inicialmente a desidratação e depois hemorragias, além de convulsões.

Bem, minha irmã adoentada quando soube da morte da pequena Kika (como minha mãe a apelidara) deixou escapar uma lágrima, que foi considerada o sinal de sua melhora…

O casamento dos meus pais não durou mais que dois anos após isso. Foi demais para dois jovens apaixonados, imaturos e orgulhosos. Culpa, frustração, medo… Cada qual lutando contra seus próprios demônios.

Minha irmã mais velha e meu irmão foram os que ficaram mais chocados, por serem muito próximos da Patrícia. Mas também tive minha cota de dor, que se prolongou por anos: éramos extremamente parecidas. De rosto e de comportamento (eu, na verdade, nem acho tanto, meus olhos são mais puxados e tenho um nariz bem mais empinado).

Mas alguns parentes tinham pavor de olhar para mim, pois lembravam dela. Minha tia, citada acima, me diz (não sei se de gozação, ela é bem assim) que às vezes esquecia que eu já tinha nascido quando a Patrícia morreu e cismava em pensar que eu era a reencarnação dela.

Já meu pai… Quando chegava bêbado em casa (pois a bebida foi um dos seus refúgios prediletos após o acontecido) vinha carinhoso ao meu encalce, chamando sua “Patricinha”, o que fazia minha mãe transtornar de raiva.

Todo mundo já teve seu nome trocado uma vez na vida… Eu já tive várias vezes, na rua, nas empresas onde trabalhei.

Por mais estranho que seja, raramente alguém troca meu nome por Ana, Andrea… usualmente é por Patrícia. :-(

Como espírita, acredito na nossa imortalidade, no sentido da vida e da partida das pessoas. Sei que provavelmente, Patrícia já está novamente em outra roupagem terrestre, afinal, já se foram mais de trinta e cinco anos, desde o dia 21 de março de 1975.

Mas, assim como os versos feitos pela colaboradora da escolinha que ela freqüentou e que, em um dia mais triste, minha mãezinha colocou em uma valsa, eu gosto de olhar para o céu e pensar que ela é uma “estrelinha brilhando por esse além…” e que posso conversar com ela como não tive a oportunidade nessa vida.

Enfim, esse texto é para homenagear você, minha irmã. Feliz aniversário, Patrícia. Mal nos conhecemos e, no entanto, somos tão íntimas! Obrigada, pois graças a sua presença e a sua ausência sou o que sou hoje. Obrigada por ter sido minha irmã, mesmo que por tão pouco tempo… afinal, como diz um amigo meu, duas de mim o mundo não ia dar conta! ;-)

Patrícia

“Quando olhares pro céu

E veres uma estrela brilhando

É a Patrícia querida

Que lá está morando…

Ela era linda,

Uma jóia uma rosinha em botão,

Quando partiu levou junto pedaço do meu coração.

Patrícia hoje é saudade

Pra todos que a quiseram bem

Pra mim é uma estrelinha brilhando por esse além…”

P.S. Pena que meu scanner não está funcionando.  Queria colocar uma foto dela aqui…

P.S.2 Minha mãe dizia que Feelings era a música predileta dela. Menina de bom gosto viu? Vai aí…

VN:F [1.9.1_1087]
Rating: 5.0/5 (2 votes cast)
VN:F [1.9.1_1087]
Rating: +1 (from 1 vote)
Patrícia, 5.0 out of 5 based on 2 ratings
Related Posts with Thumbnails
Share and Enjoy:
  • Print
  • Digg
  • Sphinn
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Mixx
  • Google Bookmarks
  • Blogplay
  • Twitter
  • Add to favorites
  • email
  • LinkedIn
  • Posterous

7 Responses so far.

  1. Laura says:

    Prima,

    eu sempre ouvi falar da sua irma Patricia… a minha irma ia se chamar Patricia, e ia ter o mesmo nome..Patricia de Torres Ferreira (por causa do nome do pai dela), mas depois do acontecido, minha màe achou por bem trocar o nome para Letícia. Bjos, Laura

    [Reply]

    Adriana Torres Reply:

    É… eu tava pensando nisso ontem. Não gosto muito de colocar nome em nenéns de pessoas que já se foram, sabe? Parece que fica um karma, sei lá…

    Patrícia marcou demais a família. Em todos os sentidos…

    Bjs!

    Dri

    [Reply]

    VN:F [1.9.1_1087]
    Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
    VN:F [1.9.1_1087]
    Rating: 0 (from 0 votes)
  2. Renée says:

    Nossa Dri, não sabia dessa sua história! Fiquei emocionada aqui com suas palavras. Linda homenagem para sua irmã! E tenha certeza de que ela sempre esteve (e está) do lado de vcs. “Não é preciso estar perto para estar junto”. Bjão

    [Reply]

    Adriana Torres Reply:

    Acho que minha história um dia daria uma novela…mexicana… e o SBT iria repeti-la todo ano!

    Bjs!

    Dri

    [Reply]

    VN:F [1.9.1_1087]
    Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
    VN:F [1.9.1_1087]
    Rating: 0 (from 0 votes)
  3. Eduardo Sarsur says:

    Ei Dri…que história…belíssima… não sou espírita…mas acredito em reencarnação…Todos temos uma missão neste mundo, a da sua irmã, foi fortalecer a família…bjos…

    [Reply]

    Adriana Torres Reply:

    Obrigada Edu…

    Patrícia cumpriu sua missão, espero realmente que eu possa cumprir a minha e fazer juz ao “apelido”.

    Bjs

    Dri

    [Reply]

    VN:F [1.9.1_1087]
    Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
    VN:F [1.9.1_1087]
    Rating: 0 (from 0 votes)
  4. Ezio says:

    li este post enquanto a gente não estava se falando… queria ter linkado uma musica de Finardi (Patrizia), vou fazer agora: http://www.youtube.com/watch?v=8TnnCk3-6LA Ciao Patrícia

    [Reply]

    VA:F [1.9.1_1087]
    Rating: 0.0/5 (0 votes cast)
    VA:F [1.9.1_1087]
    Rating: 0 (from 0 votes)

Receba os posts no seu email:

Delivered by FeedBurner

Blá blá blá no Twitter

Na Rede

  • Facebook
  • LinkedIn
  • YouTube
  • Flickr