Quando eu tinha 18 anos, fiz terapia pela primeira vez. Eu tinha acabado de perder meu avô e quem já leu outros posts meus deve imaginar o quanto foi complicado esse período. Fui sua acompanhante, filha e amiga por quatro anos, ou seja, por toda a minha adolescência e, por vários motivos, sua ausência abalou seriamente minha estrutura, ainda tão frágil.
Primeiro, porque eu o amava muito. E, mesmo acreditando que era uma separação temporária, me sentia desamparada sem sua presença. Mesmo doente, sua personalidade era marcante demais para não fazer falta.
Segundo, pela culpa. Conviver com pessoas doentes não é nada fácil, principalmente para uma adolescente. Um certo alívio por não passar todos os meus dias observando a decadência daquele que foi um ícone para mim vinha acompanhada de uma culpa gigante por sentir isso.
Terceiro, porque eu era (?) rebelde. Sempre fui. E, após sua morte, nada me incomodava mais que escutar de todos que me cercavam que eu era um “anjinho” por ter sido sua companheira nestes anos. Isso realmente me perturbava muito. De anjo, nem o cabelo loiro eu tinha. E eu recebia por aquele “trabalho”! Minhas tias me pagavam, mensalmente e, quantas vezes eu não tinha a paciencia necessária por estar absorta em sonhos adolescentes…
Essa alcunha de anjo me levou a fazer algumas burradas, talvez para provar minha total incompatibilidade com o título. Acreditem, deu certo. Em pouco tempo já mudaram meu apelido…
Fui então para a terapia. Digo, se desisti de fazer psicologia (na época eu pensava nisso) foi por causa da minha ex-psicóloga. Ela não era ruim. Era péssima. Sem perceber que estava com uma adolescente confusa e que tinha acabado de descobrir longas e poderosas asas, insistia em me dizer para fazer o que meu coração mandava. E claro que interpretei ao pé da letra! Nem me pergunte, mas fiz mais tolices em um ano que conseguirei fazer no resto da minha vida! (ok, sou dramática, exagerei aqui, nem tanto…rs)
Mas teve uma coisa que ela fez e que marcou minha vida para sempre. Ela me emprestou o livro “Porque tenho medo de lhe dizer quem sou”, de J. Powel. Acreditem, minha mania de ser “super sincera” foi desenhada ao ler este livro.
A maioria das pessoas utiliza máscaras para se relacionarem – e isso quase que automaticamente. É muito desconfortável mostrar quem você é, com absoluta entrega ao outro e no final ser rejeitada. Porém, a única forma de termos relacionamentos profundos é nos entregarmos dessa forma! Esta é a essência desse livro, que me tocou profundamente.
Fiz outro dia um post divertido no facebook, ironizando com a mania dos homens de criarem personagens para si quando estão “na caça”. Após conversar com minha amiga Viviane Pessoa, uma usuária mais que presente dessa plataforma de mídia digital, descrevi alguns dos tipos que conhecemos em nossa vida. A metralhadora descontrolada, o sexo honesto…
Tirando o lado sarcástico do texto, o que eu buscava ali é demonstrar que utilizar fakes para tentar conquistar o outro não é a melhor estratégia. Porque, além de você difícilmente conseguir atingir seu objetivo, não é você quem está lá, e sim sua imaginação! Ou seja, você não está se entregando e com isso, crescendo. Por que relacionamentos verdadeiros nos ajudam a crescer e a nos tornarmos pessoas melhores, sem dúvida…
Sei que não é fácil se mostrar. Eu tive uma dificuldade enorme no início. Cada rejeição às minhas verdades doía profundamente. E, assim como as pessoas se assustavam com minha verdade tão nua, a cada ferida eu me recolhia como um animal ferido lambendo as feridas. E sim, eu rosnava para os próximos que se aproximavam.
Foi aí que peguei uma mania muito chata. De pedir desculpas por ser quem eu era. Eu pedia desculpas por tudo, até por respirar. Dez anos depois, voltei à terapia, agora com uma psicóloga incrível – Yedda Innecco, de quem tenho grande saudade.
Aquela baixinha risonha e atrevida me fez enxergar melhor a forma de lidar com a dificuldade que eu tinha em relacionar de forma tão verdadeira com o próximo. A primeira coisa que ela me fez abolir foi o tal do pedido de desculpas. A segunda, foi acreditar que eu não preciso me relacionar com todas as pessoas que surgem no meu caminho, porque definitivamente existem pessoas de mau caráter nesse mundo!
A terceira e mais importante foi aprender a relacionar comigo mesma. Porque, no final das contas, eu não era tão 8 ou 80. Entre esses números, existe uma infinidade de números – e dentro de mim, um oceano de sentimentos, virtudes e dificuldades que eu precisava aprender a reconhecer e gerenciar.
Hoje eu me considero em paz com minha própria essência. E com minhas verdades que nem sempre são tão verdades assim. Sou adepta do “sou quem sou, não o que querem que eu seja”, porém meus relacionamentos são baseados na escolha. Se o outro não está preparado para me ver inteira, ele não será uma pessoa bacana para relacionar comigo. E, gentilmente, eu me afastarei.
Da mesma forma, já consigo aceitar que sou várias Adrianas, nem anjo, nem rebelde, nem rainha nem serva. Ao mesmo tempo, tenho um pouco de cada um e que o outro irá me enxergar de acordo com sua própria expectativa – e afinal, isso é um problema dele, não meu. Se ele se sente decepcionado por eu não atender aquilo que ele esperava de mim, ele terá que resolver isso, não eu.
Eu não tenho mais medo de dizer quem eu sou. Mas, com certeza, ainda estou descobrindo, divertida, quem sou realmente. E a cada dia eu me surpreendo cada vez mais com o que existe dentro de mim. E está aí a maior diversão desse planetinha louco!
“Custa tanto ser uma pessoa plena, que muito poucos são aqueles quem têm a luz ou a coragem de pagar o preço… É preciso abandonar por completo a busca da segurança e correr o risco de viver com os dois braços. É preciso abraçar o mundo como um amante. É preciso aceitar a dor como condição da existência. É preciso cortejar a dúvida e a escuridão como o preço do conhecimento. É preciso ter uma vontade obstinada no conflito, mas também uma capacidade de aceitação total de cada consequência do viver e do morrer…”
Morris L. West Em “As Sandálias do Pescador”
Citado pro J. Powel no livro “Porque tenho medo de lhe dizer quem sou”
“Tenho medo de lhe dizer quem sou porque, se eu lhe disser quem sou, você pode não gostar e isso é tudo o que tenho.
J. Powel ____




Arrasouuuuuuuuuuuu!!!! Me senti em cada linha, que incrivel.. pensava que a bendita mania de desculpas era so minha! Respirei aliviada depois do seu texto tao bacana, tao “esclarescedor”, me senti nua, desnudada, te lendo! Parece que voce da conta de levar as Pessoas a fazerem um strip tease da alma!!! Beijao, e saudades!!! Vivi:)
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Adriana Torres Reply:
May 10th, 2010 at 12:31 pm
Oi amiga linda! Saudade de você!
Esse negócio do pedir desculpas foi um verdadeiro aprendizado. Toda vez que eu chegava no consultório e pedia desculpas por algo ela me perguntava: tá pedindo desculpas porque? A partir disso, toda vez que eu ia começar uma frase com o tal Desculpe… eu lembrava dela e me perguntava – pra que estou pedindo desculpas? Depois foi o “mas”. Por que usualmente utilizamos o desculpe assim: “desculpe mas” e minha querida mestra dizia – quando você coloca o “mas” você está na verdade negando tudo que falou antes dele… aulas de português à parte, hoje penso muito antes de utilizar esses recursos, que na verdade utilizamos para tentarmos nos mostrar gentis e humildes. Mas não é verdadeiro. Não precisamos pedir desculpas por ser quem somos ou pensar como pensamos. Podemos utilizar a gentileza de outra forma, sem descarregar nossas frustrações nos outros nem aceitar que eles façam o mesmo conosco…
Eita, isso daria um novo post…rs Bjs!
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Upp.. Interessante.. adorei o comentário. As vezes é exatamente isso que a gente passa.
bjinhus
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Adriana Torres Reply:
May 10th, 2010 at 12:32 pm
Obrigada pela visita mocinha!
Crescer dói. Mas é necessário. E o maior aprendizado (e a maior dor) é realmente relacionada com o conhece-te a ti mesmo (e acrescento, aceite com alegria…)
Bjs!
Dri
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Olha, vc tb rosnava???Rsrsrs Acredita que minha mãe falou justamente isso comigo outro dia: “Pára de rosnar como cachorro, menina. Desse jeito nunca mais vai arrumar namorado” rsrs… E não rosno só no sentido de ser marrenta, mas emito os sons, inclusive hahahahahaha
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Adriana Torres Reply:
May 10th, 2010 at 10:30 pm
Tá vendo Jana? Você tem salvação! rs Eu era quase tão mal humorada quanto você, acredite. O tempo amansou a fera, mas ela continua aqui. Não rosno alto, mas o nariz ainda contrai quando a tigresa se sente atingida…rs E nessas horas meu conselho aos incautos é: corram enquanto é tempo! hahahahahaha
Falar nisso, quando vamos sair novamente? Sem Mac e abandono no final da noite…
Bjs!
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UUuuuaaauu…. Olá Adriana! Sou mais um ilustre anônimo nesse mundão digital de meu Deus..rsrs..infelizmente não compartilho uma amizade contigo conforme notei nos posts acima, mas mesmo assim me atrevo aqui a mandar-lhe esse comentário, embora realmente eu não tenha o costume de fazer esse tipo de coisa; normalmente, leio, guardo pra mim e ponto, mas ao encontrar seu site totalmente no acaso e ler o”Pq tenho medo de lhe dizer quem sou”, fiquei absolutamente encantado com o “Eu” que vc demonstrou ser..rs, como disse a Viviane Pessoa, um verdadeiro strip tease da alma, rs. Acabei vendo o meu Eu descrito em grande parte do seu texto, porém muitas vezes muito contrariamente mascarado em mim, devido a situações de certo modo necessárias, pois de fato como disse; o verdadeiro modo de ser, sem máscaras, retoques ou maquilagens, não é muito aceito, relacionando-se ao aspecto “super sincero” que disse. Resumindo..tomei a liberdade de passar por aqui só pra lhe dizer que a partir de agora, te sigo no twitter, e tornei-me um grande fã seu, de seu “Eu”, opiniões e franqueza. Pessoas como vc tornam relacionamentos, amizades e convivências mais agradáveis em uma atmosfera cada vez mais mascarada.
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Adriana Torres Reply:
May 14th, 2010 at 5:51 pm
Nossa, que comentário bacana, ainda mais vindo de alguém que nem me conhece pessoalmente…
Adorei, obrigada…
Tome essa liberdade quantas vezes quiser. Vai ser um prazer trocar ideias com você. Acredito realmente que estamos nessa terrinha pra aprendermos a nos relacionar – conosco e com o próximo – seja o próximo minhas companheiras de gandaia ou um novo amigo virtual…
Bora revolucionar esse mundo careta, desafiando-o com nossas verdades…
Bjs
Dri
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Ei Dri,
vc continua encantadora e multi-facetada. Já me deu o cano em uns compromissos pra cerveja, ora de modo explícito, ora não…. Espero vê-la em breve, espero que esteja resolvendo suas coisas, espero que realmente conte comigo quando precisar. Ah…. vc é linda sendo quem é, como é, mesmo com nossas diferenças, que ao final das contas já não me parecem tantas nem tõ grandes. Beijos, apareça.
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Adriana Torres Reply:
May 18th, 2010 at 7:01 pm
Ei Leo… sim, sei que estou em dívida com você, não precisava cobrar publicamente, poxa! rs
Mas sua agenda é tão louca quanto a minha, então não vamos ficar debatendo de quem é a responsabilidade por esses furos. E, você sabe, estou em uma das fases de maior aprendizado da minha vida (pelo menos até hoje), então estou em dívida não só com você, mas com todos os meus amigos (se é que isso consola…) Aliás, se eles verem sua reclamação aqui, é capaz de eu ter que abrir um canal de reclamações só pra isso!
Obrigada pelo carinho. Sim, somos diferentes – principalmente na ideologia política. Mas como você disse, nem tanto assim, né? Pelo menos você é atleticano, um ótimo sinal! rs
Venha me visitar virtualmente mais vezes. Hoje colocarei um post sobre o mar revolto que, parece, está finalmente acalmando…
Bjs
Dri
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Oi, Adriana. Assim como o colega que passou por acaso e “caiu” de paraquedas, aqui também estou eu maravilhado com seu texto, hehehehe. Gostei muito. Engraçado, eu não peço desculpas explicitamente, usando as palavras, mas o faço com atitudes. Infelizmente, ainda tenho medo de dizer quem sou. Estou aprendendo, ou tentando aprender. Mas, é difícil. Gostei muito de seu blog e vou colocar no meu favoritos, para acompanhar. Abraços.
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Adriana Torres Reply:
September 8th, 2010 at 9:43 am
Olá, que bom ver seu comentário! E que bom que gostou do texto!
Essa caminhada é complicada né? Assim como você, também estou aprendendo, não se engane. Acredito que nunca vou parar de aprender, pois a cada dia descubro mais uma faceta minha que eu mesmo ignorava… mas creio que é assim mesmo. E que isso é o mais bacana de tudo!
Abrs -e e espero mais comentários, ando escrevendo pouco por estar em um período um pouco turbulento, mas voltarei a ativa em breve!
Dri
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Oi Adriana! “Lendo-te, sentindo lendo-me” Incrível como vc se descreve e me identifico! Minha mãe dizia: “Elizinha é tão sincera que chega a ser mal educada”. Agora meus filhos dizem que sofro de uma doença: “sincerissídio”… Um livro maravilhoso que me ajudou muito! Um texto maravilhoso que me ajudou a sintetizar muitos pensamentos e sentimentos! Cresci com seu texto, mergulhei nele e dei um novo mergulho no meu ser!!! Não, não vou pedir desculpas por ter entrado aqui, ao pesquisar sobre o livro no google… já não peço mais desculpas por ser quem eu sou! Parabéns! Obrigada!!! Um abraço afetuoso!!!
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Adriana Torres Reply:
June 18th, 2011 at 7:08 pm
Oi Eliza,
adorei seu comentário! Eu tb cresci muito lendo esse livro – e claro, nas sessões de terapia que me ajudaram a “não ter medo de dizer quem sou”. Continuo super sincera, mas agora também escolho bem quem é capaz de aguentar tamanha sinceridade. Eu não preciso dizer que fulana está gorda, ou magra demais. Ela já sabe. Mas posso definitivamente falar que o Bolsonaro precisa de tratamento psiquiátrico urgente…rs
Fico feliz que o texto tenha lhe ajudado. E vamos trocando informações, pois essa é a parte mais bacana de se relacionar. E relacionar é super preciso…rs
Bjs
Dri
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Olá Adriana, eu li sou fã de todos os livros de John Powell, o primeiro que li foi o “Por que tenho medo de lhe dizer quem sou” a partir deste, que foi como fazer uma terapia, procurar reler os livros dele que mais gosto. No momento estou relendo o livro: Felicidade um trabalho interior”, tbm dele. Você conhece?
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