Adriana Torres

Porque Relacionar é preciso

Posted by Adriana Torres | April - 14 - 2014 | 1 Comment

Quando engravidei do Leon, eu tinha em mim duas certezas:

1 – Eu não me submeteria à falta de ética dos médicos de convênio que exigem um pagamento “por fora” para realização do parto normal.

2 – Eu teria meu filho por parto normal, salvo se acontecesse algo que realmente comprovasse a necessidade da cirurgia. Não, eu não faria uma cesárea eletiva (agendamento da cirurgia).

O GO foi indicado por uma amiga. Muito rigoroso, até em excesso, o cabra controlava meu peso, minha alimentação, até minha postura cervical. Mas vi que ele tinha dias de atendimento para o parto normal e isso me aliviava do stress das consultas.

Eu não conhecia os sinais de “cesaristas”. E eles são muitos. Começa quando, logo nas primeiras consultas, falam com doçura em resposta ao seu desejo do parto normal: “Vamos tentar, né mãezinha? Se tudo correr bem….” E, no decorrer dos meses, eles começam, de forma consciente ou não a minar a sua confiança.

Minha idade era sempre lembrada. Meu peso, milimetricamente pesado e qualquer grama acima da habitual era uma reprimenda. Eu achava que era cuidado. Hoje vejo o quanto fui desempoderada nesse percurso.

O tempo foi passando e, com cinco meses, minha placenta se apresentava baixa, o que inviabilizaria o parto normal. Fiz o que estava ao meu alcance para não piorar a situação (nada de esforços físicos, nada de sexo, controle do stress, etc). Com oito meses a alegria – Leon se encaixou direitinho, a placenta não estava mais baixa e eu tinha tudo para tê-lo por parto normal!

Mas, como em várias outras ocasiões da minha vida, minha ingenuidade e a crença no que há de bom no mundo foram os vilões. Eu ainda não fazia ideia do quanto minha certeza esbarrava na lógica capitalista. Não percebi os sinais do GO até ele me falar, já quase no fim da gravidez, que ele também cobrava um valor à parte para o parto normal. Não, não era pra ele, era para a equipe dele.  E pensar que fui nele exatamente porque ele não cobraria…

Cercada por adeptas da cesárea, não pesquisei o suficiente. Não achava que precisava pesquisar, afinal, parimos desde que o mundo é mundo, pra que estudar tanto algo que é NATURAL? Como fui tola – essa culpa levarei para o resto da minha vida!

Apenas dois ou três amigos compreendiam minha luta. Mas eu ainda achava que, sozinha, daria conta de virar o jogo. Foi uma gravidez no geral bem tranquila, com todos os exames indicando boa saúde, minha e do filhote. Engordei por volta de dez quilos, minha pressão se manteve entre 11/7 e 12/8, tudo apontava para o sonhado PN.

Exames absolutamente normais, saúde em dia, não tinha como dar errado, não é mesmo? Com trinta e nove semanas de gravidez, fui a uma das consultas, já decidida a fazer o parto com o plantonista do hospital e o GO, ao fazer o toque, afirmou que eu teria que me submeter a uma cesárea, pois o tempo se esgotara e nem sinal de dilatação, o útero estava completamente fechado.

Angustiada, com meu plano de parto nas mãos, sentei na salinha para aguardar o ultrassom e, quando o GO passou, perguntou o que eu tinha em mãos.

Falei, timidamente e ele riu, dizendo: “pode jogar isso fora”. Minhas lágrimas vieram aos turbilhões e só parariam seis dias depois.

O ultrassom revelou que estava tudo “quase” bem. De acordo com o médico, Leon parara de engordar e o ambiente uterino se apresentava hostil para ele. Já não mais o alimentava. Estava com CIUR – Restrição de crescimento dentro do útero. Arrasada, saí de lá firme na decisão de procurar outras opiniões.

Após algumas conversas com uma amiga, peguei a indicação de um GO humanizado e levei meu ultrassom. Também liguei para outro GO que, em que pese não atender pelo meu plano, poderia dar sua opinião.

Ambos foram unânimes em dizer que esperariam mais para tomar uma decisão tão drástica quanto fazer a cesárea. No máximo iriam para a indução, se fosse preciso.

Fui até o primeiro GO indicado, mas ele cobraria cerca de três mil reais para realizar o parto e eu não tinha esse dinheiro. Não sabia que precisaria dele.

Passei o fim de semana rezando e pedindo ao meu corpo que fizesse sua parte. Não sabia mais o que fazer para isso…

No sábado a noite, uma alegria: o tampão saiu. Isso me deu a certeza que estava no caminho certo. Mas, ao mesmo tempo, obediente, na terça-feira fui novamente no GO nazista para verificar como o Leon estava.

O ultrassom mostrou o “envelhecimento da placenta” e o baixo peso do filhote. Fui novamente alertada da necessidade da cesárea, que repudiei.

Sabendo que eu não abriria mão do parto normal, ele me sugeriu então ir até o hospital escolhido fazer outro ultrassom, o que fiz no dia seguinte. Aí começou meu calvário.

Na quarta-feira, munida de todos os outros ultrassons já feitos, fui até o hospital. Após horas de espera, fui atendida por uma médica muito simpática, que fez o encaminhamento para o exame. Nesse, foi constatado que Leon não estava se mexendo e aí fui encaminhada para o exame de cartiodografia.

No início, os batimentos estavam fracos mas, após alguns minutos, apresentaram normalidade. A médica concluiu que o filhote estava tirando uma bela soneca e estava tudo bem.

Voltando para a sala da plantonista, quase 22 horas da noite, fui orientada a voltar no dia seguinte para fazer a indução do parto. Fui para casa com um misto de medo e expectativa, mais uma vez me agarrando a certeza inicial do tempo certo do meu filhote vir ao mundo e, ao mesmo tempo, consciente que deveria respeitar também a opinião dos médicos. É o que devemos fazer, certo? Ou não?

Ao escrever a respeito no facebook, apenas um amigo me alertou indiretamente sobre o “diagnóstico”. Mas eu não tive tempo de ler. =(

Sete horas da manhã já estava no hospital, mas a nova plantonista não concordou com a anterior e queria me indicar para a cesárea. Motivo? Gestação à termo (39 semanas e seis dias) + CIUR – Crescimento intra-uterino restrito. Não aceitei e pedi para que me dessem o medicamento para a indução, o que foi feito apenas às 11 horas da manhã.

Exausta emocional e fisicamente, fui visitada por mais dois plantonistas no espaço de uma hora. Ambos afirmando que precisava realizar a cesárea, que era o melhor para o bebê, mas que a decisão era minha.

Já sentindo as contrações iniciais, comecei a chorar compulsivamente ao conversar com o segundo e explodi em desespero quando ele me disse para conversar com o próximo plantonista, que chegou também afirmando que, se fosse seu filho, faria a cesárea, pois Leon já estava em sofrimento crônico e, caso optasse por parto normal, poderia entrar em sofrimento agudo.

Vocês fazem ideia do que é para uma mãe, leiga, tomar essa decisão, contra tudo e contra todos? Pessoas que estudaram anos, que deveriam ser os “experts” no assunto falam que se você “teimar” estará matando seu filho mas que a decisão é sua, o que fazer?

Confesso. Arreguei. Não tive UM SER na hora que falasse:”continue, querida, lute pelo parto do seu filho!”. Se UM tivesse falado isso, eu me agarraria a esse um. Mas não. Era eu contra o sistema. E ele me esmagou.

Passei a tarde sentindo dor. Das contrações da indução que já tinham começado e do desespero de ver minhas certezas jogadas por terra. Só às cinco horas da tarde vieram me buscar para a sala de cirurgia, sem sequer verificarem se tinha dilatação. Ao chegar na sala, a gentileza me cercou. Sabiam da minha dor. Da minha incompetência. Da minha impotência. Ou do erro deles. Vai saber. O anestesista colocou um cd para tocar (Beatles para bebês), conversaram delicadamente comigo e, ao nascer, colocaram meu filhote em meu colo. Eu chorava, de dor pelo parto não realizado, de alegria por ver meu filho vivo.

Eles eram os heróis? É como se portavam. Roubaram meu parto e se julgavam os melhores. Eu não conseguia sequer olhar nos olhos deles.

Após limpá-lo, me entregaram o pacotinho de novo e, pelo menos, pude sair da sala amamentando-o, como eu sonhava. Não olhei para a forma como o “limparam”. E, quando alguns dias atrás, vi este vídeo sobre uma cesárea que mostrava os métodos invasivos com o bebê que acabara de vir ao mundo, não aguentei e desliguei. Que sofrimento, meu Deus!

A amamentação foi outro capítulo à parte, que já registrei aqui.

Mas não, nada foi como eu sonhei. Por minha culpa também, por acreditar que eu podia fazer diferente. Eu lutei contra o sistema e perdi, vergonhosamente. Meses depois, participando de um grupo de mães que lutam pelo parto humanizado e por uma maternagem com apego, percebi que fui enganada. Que poderia ter sido diferente.

E minha dor se transformou em revolta. Contra esse sistema estúpido que tira de nós até mesmo o que a natureza nos deu.

Tive acesso a uma lista das desculpas mais utilizadas para a realização de uma desnecessária. Me achei ali. E chorei, chorei tanto quanto no dia da cirurgia. E me culpei. Porque diabos eu não vi essa lista antes? Porque não me empoderei de fato? Porque não cobrei algum procedimento que evitasse a cesárea, o mais correto a fazer?

Essa culpa carregarei para o resto da vida, um fardo inevitável.

Algumas pessoas andam dizendo que estamos numa ditadura do parto normal. Deve ser como a ditadura gay, né? Uma minoria lutando pelos seus direitos e os #ricosecultos esbravejando que estamos querendo privilégios, que queremos inverter a ordem das coisas. Que estamos tirando o direito das “mãezinhas” escolherem sua cesárea, tão moderna, tão mais cômoda, tão mais assassina… PERA.

Se você está grávida e tem a certeza, mesmo com todas as evidências científicas contrárias que quer fazer uma cirurgia para ter seu filho, é a sua escolha e eu jamais a julgarei. Seu corpo, suas regras. Mas não me venha falar que essa luta é contra você. Não seja tola. Ninguém vai proibir a cesárea. O que queremos é o direito aos nossos corpos. À informação. Ao protagonismo dos nossos partos como eram com nossas bisavós, nossas avós e até com nossas mães.

O sistema é cruel. Perder para ele é fácil. Eu perdi. Mas isso não significa que não posso fazer disso uma bandeira para que outras o vençam. Porque é da minha natureza transformar dor em luta.

Poder para nós!

 

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One Response so far.

  1. Muito triste saber desses acontecimentos, onde profissionais que deveriam te ajudar pouco se importam, impondo regras e fazendo terror (isso pq nao quero comentar do “dinheirinho por fora” que é um verdadeiro absurdo). Infelizmente essa é a realidade! Minha filha nasceu a poucos dias (parto normal), por que aqui (EUA) a história é outra.

    Abraços Dri, tudo de bom pra você e o Leon! S2

    [Reply]


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