Sei que vão dizer que estou cuspindo no prato que como, várias vezes por mês. Realmente, adoro a facilidade de um Mc Donalds ou de uma pizzaria delivery na loucura que é o meu dia a dia.
Quantas vezes, assoberbada de atividades, abdico da experiência deliciosa que é cozinhar, para pedir, sem sair do meu trabalho (ou seja, do notebook) um alimento que degusto em poucos minutos e que me rende algumas horas a mais de produtividade. Afinal, nem preciso arrumar a cozinha depois.
Mas, não posso deixar de notar, entristecida, o quanto a cultura fast food tem, assustadoramente, permeado nossos relacionamentos e atitudes na vida.
Quando eu era jovem, demorava meses, talvez anos para chamar alguém de amigo. A palavra amizade pressupõe uma relação afetiva, sem vínculos sexuais, que se origina de afeição e conhecimento mútuos. Hoje, porém, já se chama alguém de amigo por ter trocado com este alguns “tweets” pela internet.
Os namoros também eram construídos de forma mais lenta e paciente. Começava com os olhares, a paquera angustiante e deliciosa, as primeiras palavras, os sorrisos encabulados… O primeiro beijo era anotado em agendas recheadas de corações e suspiros.
E o sexo… Sim, ainda fazíamos amor, coisa mais linda de se dizer entre risadinhas desavergonhadas nas noites de conversa com as “melhores amigas”, que vinham trocar confidências no silêncio gostoso de nossos quartos, em meio a novos cremes para cabelos, brigadeiro de colher e fumaça de cigarro (sim, fumar era algo super aceitável, acreditem…).
E as noites no interior? Chegávamos à casa de Bonfim e a primeira providência de minha mãe, após espantar os morcegos que curtiam o aconchego do lar em nossa ausência, era acender o fogão à lenha, pois, durante a noite, iria preparar o feijão do dia seguinte. Nada de usar panela de pressão, feijão feito em fogão a lenha tem que respeitar o ritmo preguiçoso da vida interiorana!
Minha mãe pegava o violão e, juntos aos primos e amigos ficávamos na cozinha da casa, até altas horas, bebericando cachaça, fazendo tira-gostos bem mineiros e contando “causos” que marcaram a família. Cantávamos, ríamos, chorávamos e assim, lentamente como o cozinhar do feijão, estreitávamos os laços que nos unia.
Hoje vejo tantas pessoas falarem em sustentabilidade – sem terem a menor noção que o termo também perpassa pelo caminho vagaroso da construção. Não iremos transformar a sociedade de um dia para o outro. A natureza demorou milhões de anos para chegar ao estágio atual – em seu ritmo preciso e peculiar. Para retomarmos o socialmente justo, o culturalmente aceito, o ecologicamente correto e o economicamente viável, princípios básicos da sustentabilidade, devemos reaprender a nos relacionar conosco, com o próximo e com o Universo.
Não que eu considere o tempo condição essencial para um relacionamento verdadeiro. Conheço namoros que duraram 10 anos e não sobreviveram ao casamento. O tempo auxilia, mas não é o principal fator ,mas sim nossa capacidade de nos entregarmos às nossas relações.
Lembro de uma história, contada não sei por quem, de um jovem que, a beira do rio, colocava os pés na água e não tinha coragem de nadar, pois percebia a água muito fria. Seu pai, num gesto rápido, o joga no rio e, passado o choque inicial, o jovem percebe que a temperatura da água está muito agradável!
Ao nos relacionarmos de forma superficial e nos alimentarmos para apenas suprir as necessidades do organismo sem saborearmos de fato o antes, o durante e o depois está nos tornando pessoas como esse menino. Colocamos o pé na água, mas não sabemos realmente qual a sua temperatura, pois não nos permitimos aprofundar em nada.
Não formaremos uma nação íntegra, se não conscientizarmos que somente uma educação de qualidade, em longo prazo, proporcionará cidadãos responsáveis e capazes.
Não teremos clientes parceiros, se não construirmos relações verdadeiras, baseadas na confiança e em trocas justas, que satisfaçam todos os envolvidos.
Não amaremos realmente o próximo, se não nos entregarmos, de forma absoluta e corajosa, à descoberta mútua. Amar duas, três, quatro ao mesmo tempo não é amar, é colecionar pessoas e valorizar sensações, não sentimentos.
A fidelidade, tão fora de moda, é vital para que tenhamos foco na relação. Não como um cabresto que nos impede de viver plenamente nossa individualidade, mas uma escolha consciente de que, ao desejar realmente amar, precisamos nos dedicar diariamente ao outro para nos descobrimos enquanto seres humanos.
Que possamos refletir um pouco mais, ao invés de seguirmos, afoitos, a onda de relacionamentos fast food. Tentemos redescobrir o prazer, de forma sincera, vagarosa e constante, de construirmos nosso próprio eu, através de relações profundas e autênticas!
“É uma lei da vida humana, tão certa como a da gravidade: para vivermos plenamente, precisamos aprender a usar as coisas e amar as pessoas, não amar as coisas e usar as pessoas.” John Powell, no livro “Por que tenho medo de lhe dizer quem sou.”





Belo texto Adriana, é assustador como a cultura “Fast Food” está mudando o jeito de viver de todos nós.
Parabéns pelo Blog.
[Reply]
Adriana Torres Reply:
April 5th, 2010 at 6:06 pm
Valeu pela visita Rafael…
Eu realmente me assusto com os novos tempos. Acho que minha mãe tinha razão, nasci na época errada…
Volte mais vezes viu?
Abrs
[Reply]