Adriana Torres

Porque Relacionar é preciso

Posted by Adriana Torres | April - 2 - 2010 | 9 Comments

A homenagem

Hoje o Brasil está celebrando o centenário de Chico Xavier, considerada a figura mais representativa do Espiritismo no país. Nascido em 02 de abril de 1910, em Pedro Leopoldo, Minas Gerais, o médium psicografou 451 livros e ajudou milhares de pessoas através da renda de suas publicações, que eram integralmente doadas para obras de caridade.

Mesmo quem não acredita nos princípios dessa doutrina cristã não deixa de respeitar a memória desse grande homem, um exemplo de amor ao próximo. Diversos jornais e sites hoje falam sobre sua personalidade surpreendente e, talvez por causa disso, prefiro fazer minha homenagem a ele falando daquele que foi o grande responsável pela minha própria fé espírita: meu avô materno, Terêncio Torres.

Eu sempre fui questionadora. Chatinha mesmo. Aos onze anos, li a Bíblia, já que minha mãe era católica e fazia questão dos filhos cumprirem os rituais da Igreja – e recordo que fiquei muito confusa com os textos.

No catequismo, torci o nariz para algumas alegorias da Igreja e comecei a pesquisar outras crenças. E ,os livros espíritas, abundantes na casa do Sr. Terêncio (como era chamado pela maioria) , trouxeram para mim as respostas que meu cérebro inquieto buscava.

Mas, foi seu exemplo de vida, sua coragem, sua retidão de caráter que influenciou definitivamente minha escolha. Aos quatorze anos fui designada pela minha mãe para ser sua acompanhante, pois sua saúde debilitada exigia uma presença constante e minha Tia Zezé, que na época era a única moradora em sua casa além dele, trabalhava 12 horas por dia.

Foram quatro anos de aprendizado moral e intelectual – que afirmo, foram decisivos para formar a Adriana Torres de hoje. Sua aceitação da condição em que se encontrava (um homem que trabalhou até os oitenta e quatro anos se ver aos cuidados de sua netinha de quatorze não deve ser algo agradável), sua inteligência e perspicácia (teria mil histórias pra contar sobre alguns momentos cômicos vividos em sua companhia) e, principalmente, sua capacidade de renunciar pelo bem do próximo me levaram a crer em sua famosa frase – “o homem só se realiza servindo à sociedade”.

O Homem

Terêncio Torres nasceu em 26 de novembro de 1902, no município de Januária, norte de Minas, à beira do Rio São Francisco. De família simples, aos treze anos já era um empreendedor social, editando, nas horas vagas de seu trabalho na Tipografia Correa, o jornalzinho “O Januarense”, totalmente feito por ele e distribuído gratuitamente.

Perdeu o pai, Terêncio Torres de Almeida, com quatro anos de idade. Tempos mais tarde, sua mãe contraiu novo matrimônio e decidiu enviar os filhos para seminários e conventos. Assim, em 1918 Terêncio deu entrada no Seminário Pirapora, em São Paulo, de onde saiu em 1922 e veio morar em Belo Horizonte. (Aqui, as versões são duas: minha mãe falava que ele tinha sido convidado a se retirar do Seminário, pois, além de perguntar demais, ele um belo dia reclamou que encontrou uma cobra na salada do almoço. Já minha Tia Elma diz que, após encontrar uma MINHOCA na salada e ser punido por ter exibido a prova do caso, ele enviou uma carta para sua querida mãe dizendo que o regime autoritário do Seminário ia contra seus princípios e que ia se retirar).

Observação minha: Terêncio, puxando seu avô Inácio, que era maestro, tocava quase todos os instrumentos de sopro existentes, tendo iniciado aos 12 anos na Filarmônica Euterpe Januarense, onde tocava bombardino. No Seminário, o rapaz não conseguiu ficar sem essa paixão e organizou uma banda, da qual era regente e compositor das partituras. Algo me diz que ele realmente foi convidado a se retirar… ;-)

Chegando à BH, Terêncio se inscreveu em um concurso para suplente do Banco Hipotecário e Agrícola, classificando-se em primeiro lugar, tendo trabalhado na seção de contas correntes e sendo depois transferido para o Banco Comércio e Indústria.

Morava na “pensão do Pepino” e tinha uma vida tranquila, pois nem precisava pagar pelo cinema, já que o bilheteiro José Cunha, do Cine Pathê, era seu conterrâneo e amigo.

Mas ele queria progredir. E, em 1927, fez um concurso de guarda-livros (o contador da época) para uma Fábrica de Laticínios localizada na cidade de Bonfim, a 80 quilômetros da capital. E foi lá, em um passeio de fim de semana com o irmão Corbiniano e o amigo Jair, que conheceu aquela que seria a luz dos seus olhos pelo resto de sua vida terrena: Ondina Lamounier, irmã de Layde e neta de Dona Flor, ambas consideradas as moças mais bonitas da região.

Ele deve ter levado um baita susto quando conheceu sua amada. Alguns meses antes, em Belo Horizonte, Terêncio avistou uma linda jovem adentrando em um prédio do centro da cidade e murmurou consigo, encantado, que casaria com essa moça sem pensar duas vezes! Nem preciso dizer que era a mesma não é? E que eles em três meses estavam casados, sob protestos do Tio da jovem, Oscar, que o considerava péssimo partido por não ter posses financeiras (Tio Oscar tentou destruir o casamento, enviando um telegrama com falsas acusações sobre meu avô, mas não conseguiu seu intento. Muitos anos depois, falido e doente, foi acolhido por quem tanto perseguiu e pôde ter um fim de vida digno).

O destino ainda estava traçando novos rumos. Com a falência da Fábrica de Laticínios, Terêncio deixou Ondina com o filho Afonso (e já grávida do segundo, Paulo) e retornou para Belo Horizonte, onde começou a trabalhar na Casa David , na Rua Goiás, como guarda-livros e aspirando à sociedade da empresa, fato que se consumou em 1937. Segundo contam, isso foi graças ao seu controle financeiro e austeridade: ele voltava para casa muitas vezes a pé, para economizar o dinheiro do bonde (não, eu não puxei essa virtude!).

Além disso, minha avó Ondina, que já havia mudado para Belo Horizonte, pois era muito ciumenta e não ia deixá-lo solto por aqui, era uma excelente dona de casa e tiveram o aluguel diminuído por que o proprietário observou a excelente conservação do imóvel, em visita aos inquilinos.

Posteriormente, ele compraria a casa que foi da família de Dona Ondina, na Av. Getulio Vargas, 820, e que tinha sido perdida pelo famoso Tio Oscar em jogos de azar (ou vendida por ele para esse fim, não sei muito bem).

A partir daí, sua vida profissional foi uma sucessão de grandes vitórias. Em 1943 ele comprou a casa Cândido Gonçalves e fundou a firma atacadista de cereais, União do Comércio Varejista S.A. Em 1948 ele passou a controlar a empresa sozinho, já que inicialmente era a mesma constituída de capital fornecido pelos diversos varejistas da cidade.

Foi presidente da União dos Varejistas de BH, presidente do Sindicato do Comércio Varejista e Atacadista de Gêneros Alimentícios de Minas Gerais, diretor do Banco Mineiro de Produção (posterior Bemge, incorporado pelo Itaú) presidente da Federação do Comércio de Minas Gerais, presidente do Conselho Regional do SENAC/MG e do SESC/MG, vogal e vice-presidente da Junta Comercial de Minas Gerais, onde permaneceu até os oitenta e quatro anos de idade, época em que seu corpo já não mais conseguia responder aos estímulos daquele espírito incansável.

Seu casamento com Ondina Lamounier rendeu sete filhos e trinta e um netos. E, até hoje, aqueles que o conheceram são unânimes em afirmar que sua “humanidade” jamais será esquecida.

O Espírita

Meu avô era católico. Pouco praticante, após sua experiência no Seminário. Segundo versões familiares, assim como a maioria de nós, ele também passou grandes dificuldades financeiras, quando morava no imóvel da Rua Serpentina, no Carlos Prates.

Certo dia, ao retornar para casa, aguardava a passagem do trem para atravessar a linha, com pensamentos obscuros e o semblante carregado de preocupação. Um senhor, que até hoje ninguém sabe quem é, o interpelou pela tristeza mal contida em sua face e, apiedado do comentário tristonho que recebeu, o levou para conversar com o Sr. Paulo de Oliveira, espírita que, através de sua mediunidade, revelou a Terêncio a importância de sua missão na terra, sugerindo que ele lesse as obras espíritas de Kardec para compreender o porquê de tantas dificuldades.

Posteriormente, Sr. Paulo, que se tornou amigo querido, o levou para conhecer o grande médium Chico Xavier, que ainda era bem jovem na época. Seu centro espírita, em Pedro Leopoldo, era já referência em todas as cidades vizinhas.

Foi nesse período que meu avô fez amizade com aqueles que se tornariam seus grandes companheiros em fé – entre eles Efigênio Sales Vitor, Badi Cury, Virgilio Almeida e Domingos Moutinho. Entusiasmados com a nova crença, doze desses pioneiros do espiritismo decidiram fundar um centro em Belo Horizonte – O Tiago Maior, onde se reuniam semanalmente naquela que ficou conhecida como “a reunião dos doze”.

Em terreno cedido por Efigênio, na Avenida do Contorno,  inauguraram a Sociedade de Amparo à Pobreza, a Sopa dos Pobres, onde distribuíam sopa gratuita para os moradores de uma favela próxima.

O falecimento de minha avó (que causou profunda tristeza em meu avô) e alguns problemas surgidos na distribuição alimentícia realizada pela Sociedade foram fatos decisivos para que, junto com Virgilio Almeida, decidisse extinguir a Sopa dos Pobres e fundar o Recanto da Saudade, um lar para amparar idosos do sexo feminino. Sua filha, Olga, teve a missão de administrar o local, o que fez de forma brilhante durante anos, até passar a administração para familiares do outro fundador.

Além do Tiago Maior, meu avô freqüentava a reunião espírita Caminho da Redenção, fundada por ele e pelos filhos e que era realizada inicialmente na casa de sua filha Elma, na Cristóvão Colombo, passando a ser sediada posteriormente em sua própria casa.

Posso dizer que essa reunião foi um marco em minha vida. Não presenciei vários dos primeiros participantes, como Dolores Abreu, Yolanda, Domingos Moutinho… Mas, Neném Linhares, uma das grandes médiuns do “Caminho”, era minha vizinha e dava gosto ver sua generosidade e amparo nas visitas fraternas realizadas para apoiar os que se encontravam com problemas diversos.

Lembro de muitas reuniões das quais participei, quando minha Tia Elma começou a psicografar seu primeiro livro (Mensagens do Irmão Tomé, hoje rebatizado de Relicário) e, posteriormente, o Torre de Cynara, que aguçava minha curiosidade infantil por falar da vida de artistas brasileiros na dimensão espiritual.

O Recanto também me traz lembranças deliciosas, de festas, de ternura e de como o respeito à velhice deve começar bem cedo, no convívio diário. Hoje o Recanto da Saudade ainda existe, porém sob outra administração e no bairro Salgado Filho.

Não digo que meu avô era bom por ser espírita. Claro que ele já era, em sua essência, bom caráter – mas acredito firmemente que a luz da doutrina que ele abraçou foi um farol que direcionou seus passos e seu desenvolvimento enquanto ser humano.

Vovô Terêncio era aquele tipo de pessoa que sempre trazia um sorriso (tímido, mas um sorriso) no rosto, uma palavra de cuidado e amizade e um afeto genuíno pelo próximo. Algumas histórias suas são famosas, como a vez em que os funcionários da Junta aderiram a uma greve.  Quando meu avô chegou para trabalhar, nenhum dos participantes, que estavam sentados à entrada do estabelecimento, ousou impedi-lo de seguir para a sua sala. Respeito não se impõe, se conquista, já dizia um ex-gerente meu. E Terêncio era respeitado por todos que o conheciam!

Lembro, em seu velório, de um senhor, Sinval Ladeira, que mesmo com seus noventa anos e o pé quebrado, fez questão de carregar o caixão do companheiro, dizendo em lágrimas que “homens como ele só nasciam de mil em mil anos”.

Ele não enxergava o mal nas pessoas, mas o bem que elas poderiam praticar. Deve ser por isso que me chamava de “seu anjinho”. ;-)

Terêncio Torres era um homem que também poderia ser chamado de Amor

P.S. Eu não sabia do motivo que levou meu avô a se tornar espírita. Acredito que a sucessão de fatos (seminário, coincidências, o encontro com o Paulo Oliveira) o levaram por esse caminho. Me emocionei ao saber de seus problemas…

P.S. 2. Essa semana liguei para minhas Tias, que me contaram sobre as histórias que eu não sabia ou tinha dúvida. Para reconstituir a parte profissional, utilizei como base um excelente texto escrito por Demóstenes Romano Filho e publicado no Estado de Minas no dia 26 de novembro de 1964, data em que completava 62 anos. Pena que meu scanner está com problemas, pois queria colocar aqui o desenho dele feito por Oldack Esteves para essa edição do jornal.

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9 Responses so far.

  1. Simone says:

    Lindo, chorei muito lembrando do Vovô. Ser neta dele é uma benção. Seus ensinamentos vão perpetuar por várias gerações. O que mais eu gostava nele é que falava pouco e dizia tudo. Ah se todos fossem assim… que maravilha seria esse mundo. Eu me lembro dele falando: – Minha filha, se olharmos mais as qualidades dos outros em vez de olharmos os defeitos, teríamos um mundo melhor. Obrigado meu avô pelas lições e pela fé inabalável. Obrigado por ter sido um pai presente quando o meu não estava. Obrigada Dri, por colocar essa homenagem ao maio e melhorr homem que conheci nessa minha vida.

    [Reply]

    Adriana Torres Reply:

    Eu chorei escrevendo, imagina! São tantas histórias que passaram na minha cabeça… repare que nem citei uma das suas maiores qualidades, de atleticano convicto! rs Se eu fosse escrever todas daria um livro! Obrigada, minha irmã, por corrobar minhas palavras. Bjs Dri

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  2. elisa torres says:

    Adriana adorei ler a respeito do vovô. Pena que não estive tão presente quanto você, mas por outro lado temos uma pessoa na família que sabe expressar tão bem as palavras que acaba preenchendo o vazio. Precisamos reunie a familia e trocar ideias. Bjs, Lilisa

    [Reply]

    Adriana Torres Reply:

    Lilisa, que surpresa boa! E que bom que gostou, foi feito de coração…

    Estava escrevendo hoje um post sobre relacionamentos e, no meio dele, me lembrei tanto de você, das nossas farras em Bonfim… eita. Ando muito saudosista!

    Eu fui privilegiada, confesso. Conviver com o vovô diariamente foi benção de Deus! E precisamos sim nos reunir mais, era tão bom quanto o fazíamos antigamente…

    Bjs,

    Dri

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  3. Maria Lucia Torres says:

    oi Adriana, fiquei muito emocionada ao ler a homenagem. Bateu uma saudade…

    Não lembro da minha infância, é uma pena não poder compartilhar com você.

    Lembro, pouco, dos dias que passei com o vovô no hospital. As tias ( Inês, Olga, Zeze )

    passavam a noite comigo, contando casos… Que pena, não lembro muito.

    Mas, deu saudade. Beijos LULU

    [Reply]

    Adriana Torres Reply:

    Oi Lulu, que coisa boa… agora que descobri que a Laurinha divulgou na família, eu nem tenho o email da galera então só enviei pros meus irmãos e para o pessoal da Tia Elma…

    Então, lembranças são o que não me falta. Lembro dessa última semana de vida dele como se fosse ontem. 7 dias no hospital, começando em um domingo, com sua parada respiratória lá em casa, a correria, a internação… os médicos falando que não tinha mais jeito, eu indo despedir dele no CTI na terça e – “milagrosamente” ele se recupera nessa mesma noite e na quinta já é liberado para o quarto. O médico, otimista, marca sua alta para domingo…

    Fiquei grudada nele esses 7 dias, só saindo para almoçar (pão de queijo e coca-cola quase todos os dias) ou tomar banho em casa. No domingo, tive uma crise de dor na região do abdome e os médicos me enviaram para casa, com suspeita de apendicite. Meu afastamento foi necessário, pois foi só eu ir para casa e ele partir… Voltei a sentir essa mesma dor, ano passado. =/

    A saudade é uma constante em minha vida. Do vovô, da mamãe, de tios, amigos… Aprendemos a conviver com essa saudade e transformá-la em alento e estímulo para continuarmos!

    Valeu pela visita. Saudade de todos aí…

    Bjs

    Dri

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  4. Celina Figueiredo says:

    Adriana, estou encntada om seu texto e com a figura humana maravilhosa que foi seu avê. Vocês têm a quem puxar, pois nada mais educativo do que o bom exemplo.Foi, realmente, um homem cujo nome é AMOR. Beijos de Celina

    [Reply]

    Adriana Torres Reply:

    Celina,

    você com certeza adoraria conhecer o Vovô Terêncio… Ele era encantador. Sempre tinha uma palavra de ânimo e coragem para cada um de nós. Como você disse, seu exemplo vive entre nós e nos mostra o caminho que precisamos seguir… Bjs e obrigada!

    Dri

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  5. [...] avô materno, Terêncio Torres, nasceu em Januária, norte de Minas. Mas como contei neste outro post, veio cedo pra Belo Horizonte, onde construiu sua vida e pôde colocar em prática o lema de sua [...]


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